sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A mulher do túnel

 

Jamais tinha ouvido a respeito de algum dos seus deuses o que lhe contavam sobre esse homem.

A todo momento tinha notícia das maravilhas que ele vinha fazendo para as pessoas necessitadas. Tinha ouvido sobre curas inacreditáveis que realizara.

Inúmeras pessoas diziam ser ele o rei aguardado havia tanto tempo por aquela nação, detentor de todo o poder.

De modo que ela o via como a última esperança. Dormia e acordava desejando uma chance de o encontrar. Para contar como a sua filha estava sofrendo miseravelmente. E que Baal não havia resolvido o problema. E nenhuma das súplicas feitas a qualquer dos deuses do seu povo havia servido para alguma melhora. E não eram poucos os deuses que os seus conterrâneos adoravam e aos quais pediam socorro.

Ela se viu obrigada a reconhecer que a atual situação na sua casa estava além de todas as forças da natureza.

Diziam que ele mapeava as redondezas do seu país, chegando a lugares estratégicos para a divulgação do seu plano de reino. E então surgiram rumores sobre a sua vinda para esses lados em breve, viria visitar a casa de alguém nas proximidades, comentavam. Primeiro chegaram dois dos seus seguidores para preparar pousada, para em seguida ele aparecer.

Sem perda de tempo ela o foi procurar. Nada poderia detê-la. Nem mesmo a reprovação dos seguidores dele à sua origem cananeia, seu paganismo. Os discípulos dele queriam expulsa-la de perto, incomodados com a presença de uma mulher gritando atrás deles. E impura essa mulher, pecadora, afinal de contas pertencia a uma nação expulsa por eles quando chegaram à sua terra, povo de valores considerados invertidos, povo promíscuo, cruel, que fazia inclusive sacrifício de criança a um deus pagão.

Ela de qualquer forma não contava com a consideração de homem nenhum, menosprezada como sempre pelo seu gênero sexual, e nesse caso pelo seu gentilismo e o paganismo do seu povo. Foi por pura ousadia, porém, avançando entre a multidão, e se lançou aos pés dele, a implorar pela cura da filha, declarando-o como o esperado e poderoso rei. Pois ele era a luz no fim do túnel!

Ele em princípio se recusou a atender alguém de fora do seu povo. Estava em um compromisso do seu projeto, apressava-se para divulgar o plano entre os seus. Sem tempo a desperdiçar com uma pessoa estrangeira. E vinda dos cananeus. Não convinha lhe conceder o favor, para depois ela ir acender uma fogueira para um deus inexistente.

Seria como dar ao cachorro o pão do filho. Ele declarou isso.

Então ela se humilhou ainda mais, dizendo que podia comer as migalhas caídas da mesa.

E isso foi justificável, sua demonstração de crer no poder dele sobre toda a hierarquia, humana e divina, foi o seu merecimento, a chave da porta de entrada para a graça tão divulgada por ele.

Quando depois chegou em casa, encontrou a filha sã.

(de uma história feminina no livro de Mateus - Bíblia)

 

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