Jamais tinha ouvido a respeito de algum dos seus deuses o que
lhe contavam sobre esse homem.
A todo momento tinha notícia das maravilhas que ele vinha
fazendo para as pessoas necessitadas. Tinha ouvido sobre curas inacreditáveis
que realizara.
Inúmeras pessoas diziam ser ele o rei aguardado havia tanto
tempo por aquela nação, detentor de todo o poder.
De modo que ela o via como a última esperança. Dormia e
acordava desejando uma chance de o encontrar. Para contar como a sua filha
estava sofrendo miseravelmente. E que Baal não havia resolvido o problema. E
nenhuma das súplicas feitas a qualquer dos deuses do seu povo havia servido
para alguma melhora. E não eram poucos os deuses que os seus conterrâneos adoravam
e aos quais pediam socorro.
Ela se viu obrigada a reconhecer que a atual situação na sua
casa estava além de todas as forças da natureza.
Diziam que ele mapeava as redondezas do seu país, chegando a
lugares estratégicos para a divulgação do seu plano de reino. E então surgiram
rumores sobre a sua vinda para esses lados em breve, viria visitar a casa de
alguém nas proximidades, comentavam. Primeiro chegaram dois dos seus seguidores
para preparar pousada, para em seguida ele aparecer.
Sem perda de tempo ela o foi procurar. Nada poderia detê-la.
Nem mesmo a reprovação dos seguidores dele à sua origem cananeia, seu paganismo.
Os discípulos dele queriam expulsa-la de perto, incomodados com a presença de uma
mulher gritando atrás deles. E impura essa mulher, pecadora, afinal de contas
pertencia a uma nação expulsa por eles quando chegaram à sua terra, povo de
valores considerados invertidos, povo promíscuo, cruel, que fazia inclusive sacrifício
de criança a um deus pagão.
Ela de qualquer forma não contava com a consideração de
homem nenhum, menosprezada como sempre pelo seu gênero sexual, e nesse caso pelo
seu gentilismo e o paganismo do seu povo. Foi por pura ousadia, porém, avançando
entre a multidão, e se lançou aos pés dele, a implorar pela cura da filha,
declarando-o como o esperado e poderoso rei. Pois ele era a luz no fim do túnel!
Ele em princípio se recusou a atender alguém de fora do seu
povo. Estava em um compromisso do seu projeto,
apressava-se para divulgar o plano entre os seus. Sem tempo a desperdiçar com
uma pessoa estrangeira. E vinda dos cananeus. Não convinha lhe conceder o favor, para depois ela ir acender
uma fogueira para um deus inexistente.
Seria como dar ao cachorro o pão do
filho. Ele declarou isso.
Então ela se humilhou ainda
mais, dizendo que podia comer as migalhas caídas da mesa.
E isso foi justificável, sua
demonstração de crer no poder dele sobre toda a hierarquia, humana
e divina, foi o seu merecimento, a chave da porta de entrada para a graça tão
divulgada por ele.
Quando depois chegou em casa, encontrou a filha sã.
(de uma história feminina no livro de Mateus - Bíblia)

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