domingo, 26 de maio de 2024

SINAIS

Tantos têm aversão, mas sempre simpatizei com urubu. Passei a infância inteira na vila de pescadores à margem da Lagoa Mundaú, onde as pessoas colhiam e tratavam o molusco sururu para consumo e venda no mercado, e depositavam as conchas num mesmo local, perto da última casa da rua, formando um monturo crescente ao longo dos anos.

O odor no pico do meio-dia era pungente, mas não me desagradava, acho o pescado seco ao sol similar ao assado. Ali morava uma nuvem de urubus, esvoaçando o dia inteiro sobre a pirâmide gigantesca de cor preta nacarada, em mergulhos de disputa por cada resíduo nas conchas.

O balé deles deslumbrava os meus olhos artistas, eu assistia por horas a fio.

Aqui também, onde moro hoje, entre vários lagos, os urubus são vizinhos. Faxineiros competentes a consumir a carne de tudo que morre, peixe, ave ou mamífero. Nem o cadáver de um cavalo é necessário enterrar, durante três dias ocorre aquele balé no ar, e só sobra o esqueleto, limpo.

Peguei nesse assunto porque Jesus ao ser questionado pelos fariseus sobre a vinda do reino de Deus, lançou uma das suas metáforas:

“Onde estiver o corpo de um morto, aí se ajuntarão os urubus”.

Resposta enigmática, para variar. Judeu autêntico, quando não devolve uma pergunta, dá resposta que gera pergunta.

Quando li em Lucas, ontem, ouvi.

Depois indaguei se de fato ouvi.

Fui aos expositores da Palavra, mas está insolúvel até agora, parece, não conseguem entrar em acordo.

Sei é que Ele já vinha avisando que passaria pela morte.

E urubu, quem é nessa história?

Eu?

Ok... Lembra que Ele determinou que comamos a sua carne, para ter vida?

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