O Senhor Deus disse a Moisés: "Eu escolhi Bezalel, filho de Uri e neto de Hur, da tribo de Judá, e o enchi com o meu Espírito. Eu lhe dei inteligência, competência e habilidade para fazer todo tipo de trabalho artístico" (Êxodo 31:1-3)
quarta-feira, 29 de novembro de 2023
CAÍDOS
segunda-feira, 20 de novembro de 2023
Das bem-aventuranças
Era uma vez um aquário que um moço cultivou.
Tratava-se de um boião de vidro posto sobre uma mesa na
sala. Uma peça espaçosa, pois ele considerou com cuidado a liberdade de
movimento dos seres do aquário. Assim também a combinação de espécies para a
convivência. Monitorava o tempo todo as condições biológicas da água, a
iluminação, o sabor e o equilíbrio da alimentação.
Um aquário adequado para peixes viverem.
Além de bastante decorativo. Continha seres absolutamente
lindos. Pelo menos aos olhos do moço. Um arco-íris de tipos habitando a
superfície, o meio e o fundo, prateado, dourado, laranja, vermelho, azul,
branco, preto, roxo, arlequim, de bolinhas, de listras, de manchas.
Enfeitara também com plantas aquáticas, que são
indispensáveis para purificação e oxigenação da água e ambientação dos peixes, e
com troncos naturais, pedras, mini cavernas e esculturas com corais adaptados à
água doce grudados nelas.
Cuidar desse pequeno universo lhe dava imenso prazer.
Embora acontecesse uma coisa que produzia frustração. Ele
gostaria de contemplar os seus peixinhos, tamborilar de leve as pontas dos
dedos no vidro e os ver chegar, com olhinhos de curiosidade e sorrisos de
biquinho. Mas nenhum lhe dava tempo para isso, pois quando se aproximava do
aquário, todos disparavam para longe, amedrontados, cada um tratando de encontrar
um esconderijo. Sempre tinha de se contentar em avistar no máximo um ponto
furta-cor entre os pompons da cabomba lá no fundo, ou uma forma que lembrava
uma borboleta no meio da samambaia d’água mais distante, ou uma pedra que não
era, mas sim uma cauda flutuante, ou algumas bolinhas turquesa, tudo detrás de folhas
da anúbia anã. Até mesmo o Otocinclus ao percebê-lo, descolava do vidro a sua
ventosa e se enfiava nas profundezas do boião.
O moço foi ficando tristonho com essa circunstância.
Precisava descobrir alguma maneira de interagir com os seus bichinhos.
Quando um amigo opinou que se transformar em um peixinho
seria o único jeito de ser tratado com naturalidade pelos habitantes do
aquário, ele sem receio, ou qualquer hesitação, mergulhou!
Obteve um corpo de peixinho através do ventre emprestado
de uma peixinha. E habitou nesse mundo aquático durante um tempo, revelando-se para
eles como seu dono, explicando que os havia comprado porque os amava muito, que
havia entrado na pele deles para compreender sua fragilidade e seus temores, e
contando sobre o cuidado extremo que sempre lhes dedicara.
Chegada a hora de retornar ao seu mundo original,
prometeu continuar a zelar pela saúde e a segurança deles. E avisou que
desejava manter o contato diário.
Grande parte deles não acreditou numa só palavra da sua
história, é lógico, onde já se viu um peixinho dizendo tais coisas?
Mas outros escolheram crer, e perderam o medo de
encontrar o dono, mesmo ele sendo imenso.
E esses crentes foram felizes para sempre!
_ do argumento do escritor americano Philip Yansey, no
livro “O Jesus Que Eu Nunca Conheci”
https://drive.google.com/file/d/1acm5QtS7idN2oLkH7lqI1ORmMuprHBjK/view?usp=share_link
_ hã... não, espere um pouco: o argumento mesmo é do
escritor judeu chamado João, no capítulo um do seu Evangelho, versículo
catorze:
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a
sua glória”.
A FEITURA
Ontem conheci aquela moça nascida com uma doença que
causa descamação em excesso na pele, fazendo parecer que esteve no meio de um
incêndio, coberta de crostas escuras, uma disfunção nos olhos e uma deformação
nos lábios. Disse que passou por muito procedimento médico, é incurável, e ela
sobrevive coberta de bálsamo. Mas pertence a Ti, e ama te louvar, com uma voz que
é indescritível. Quem a ouve cantar conclui que também tem motivo para te
louvar.
Por isso passei a noite a recordar os bálsamos.
As coisas podem ficar difíceis depois que a gente eclode
do ovo. Pele e olhos de sensidez absoluta, pernas trôpegas, ladeira íngreme,
pedras pesadas.
Pensei que o primeiro bálsamo tivesse sido aos nove anos
de idade, naquela escola aonde me levaste para te encontrar. Onde teve o João-três-dezesseis,
o hino-quinze, os pratos de feijão com bagre ao molho de coco, as tranças no
cabelo, a amiguinha prestimosa, as maçãs vermelhonas na redinha amarela. E as
aquarelas inspiradoras no livro de lição.
Um bálsamo-tatuagem, esse.
Porém houve antes. Quatro anos? Tinham me levado a um
ponto alto na ladeira, e sentada no meio da brisa escutei a paisagem. A superfície
da lagoa cintilava lilás. Na margem de lá, a silhueta do coqueiral à direita, e
à esquerda o aglomerado cosmopolita, que o sol nacarava como se fosse uma praia
de conchas. Meu queixo pendurado e meu olhar vagando arregalado. Quem, senão Tu,
para me mostrar a paisagem naquela idade?
Mas, espere, um interlúdio antes ainda... não sei quanto
antes, mas talvez ainda nem usasse erres e esses. A tarde verde-água morna
estava tão fácil de respirar, que eu avancei para a porta, exclamando o festejo:
“Que dia bom pra brincar!”, quando uma voz rebateu com aspereza: “Dia bom pra
trabalhar!”. Era apenas alguém protestando contra a vida adulta, mas rasurou a
tatuagem. E permitiste, para contraste. Para lição de livre-arbítrio. Escolho a
vida.
Agora os vejo incontáveis, esses bálsamos desfilando
diante dos meus olhos.
Aquela batata-doce mais doce do mundo.
O sururu e o pitu e o siri, seus caldos e pirões.
A manga rosa carnuda que só lá.
O caju com a castanha imensa de assar na fogueira.
A cana e a banana em tudo que é quintal.
O araçá em tudo que é barranco.
Em cada palmo de terra o coco com água e geleia
salobrinhas.
O jambo azedinho.
A fruta-pão que é pão mas não.
A amendoeira que é uma escultura de sombra com fruta
bordô cheirosa.
Boiar no rio esmeralda bordado de baronesas e com margem
rendada de capim-santo e lírios brancos.
Os jasmineiros sem fim na alameda dos casarões, a caminho
da casa do tio Pedro. Dali guardei as bonitezas portuguesas, aquelas que
resultavam em gemas de louça floral azul lapidadas pelo terreno arenoso em tudo
que é canto. E não fiquei arqueóloga desses tesouros? Até hoje em dia.
Bálsamo-tatuagem é de construir álter ego, que eu sei.
Êxodo conta que Tu encheste do Espírito Santo um artista chamado
Bezalel para decorar o Tabernáculo de adoração. Ali utilizas inclusive a
expressão “inventar invenções”.
Meu álter ego já tinha nome faz um tempo. Mas agora vou mudar.
Sou Bezaléa.
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