quarta-feira, 29 de novembro de 2023

CAÍDOS


Acordei com o pulso a queimar em brasa. No meio da escuridão do quarto ouvi a risada do mosquito. O medonho sabe o ponto certeiro para perfurar. É aí ou no tornozelo. Bom que não seja um vampiro de estatura humana, a beber tão fácil meu sangue todo. Ainda poderia ser pior, ser o tal egípcio de meias listradinhas. A dengue me errou até agora, mas já vi causar muito sofrimento.
Tentei apagar o fogo do pulso com detergente, sem muito sucesso, e fiquei deitada reclamando no escuro: “Meu Deus! Foi o Senhor mesmo que criou esse veneno que nos atormenta??”
Não que Ele precise me explicar coisa alguma, mas penso tê-lo escutado dentro da cabeça, ou do coração, enfim, naquele ouvido interior, respondendo: “Não criei as coisas assim. O mosquito não é atraído por sangue calibrado. Mas no metabolismo ocorre um desequilíbrio, a produção de determinadas toxinas, como o ácido lático, o CO2, e outras variações, o que transforma as pessoas em alimento potencial para esses insetos. O desequilíbrio é variável de um corpo para outro, mas atinge a todos.
E é um dos sintomas da morte que entrou aqui com o pecado, no dia da queda. Toda a criação geme. Só lhe resta providenciar algum repelente amanhã e manter-se perto de mim enquanto aguarda o dia em que a natureza será restaurada. No novo céu e nova terra os corpos serão outra vez perfeitos, e ninguém estará sujeito a nenhum veneno. Respondi à sua pergunta?”
Meus olhos inundaram pela emoção a encher o peito, um arrepio subindo da sola dos pés, a passar pela nuca, e só pude dizer: “Aleluia!”, de olhos arregalados para a escuridão.
CAÍDOSAcordei com o pulso a queimar em brasa. No meio da escuridão do quarto ouvi a risada do mosquito. O medonho sabe o ponto certeiro para perfurar. É aí ou no tornozelo. Bom que não seja um vampiro de estatura humana, a beber tão fácil meu sangue todo. Ainda poderia ser pior, ser o tal egípcio de meias listradinhas. A dengue me errou até agora, mas já vi causar muito sofrimento.Tentei apagar o fogo do pulso com detergente, sem muito sucesso, e fiquei deitada reclamando no escuro: “Meu Deus! Foi o Senhor mesmo que criou esse veneno que nos atormenta??”Não que Ele precise me explicar coisa alguma, mas penso tê-lo escutado dentro da cabeça, ou do coração, enfim, naquele ouvido interior, respondendo: “Não criei as coisas assim. O mosquito não é atraído por sangue calibrado. Mas no metabolismo ocorre um desequilíbrio, a produção de determinadas toxinas, como o ácido lático, o CO2, e outras variações, o que transforma as pessoas em alimento potencial para114115esses insetos. O desequilíbrio é variável de um corpo para outro, mas atinge a todos.E é um dos sintomas da morte que entrou aqui com o pecado, no dia da queda. Toda a criação geme. Só lhe resta providenciar algum repelente amanhã e manter-se perto de mim enquanto aguarda o dia em que a natureza será restaurada. No novo céu e nova terra os corpos serão outra vez perfeitos, e ninguém estará sujeito a nenhum veneno. Respondi à sua pergunta?”Meus olhos inundaram pela emoção a encher o peito, um arrepio subindo da sola dos pés, a passar pela nuca, e só pude dizer: “Aleluia!”, de olhos arregalados para a escuridão.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Das bem-aventuranças


Jesus está me dizendo cada coisa...
que não é nova
mas que é nova:
levar uma cuspida não é honroso
mas quem não trovejar por isso
herdará a terra
e não vai mais precisar
acionar o fórum
por um pedaço de dez por vinte

 


 Era uma vez um aquário que um moço cultivou.

Tratava-se de um boião de vidro posto sobre uma mesa na sala. Uma peça espaçosa, pois ele considerou com cuidado a liberdade de movimento dos seres do aquário. Assim também a combinação de espécies para a convivência. Monitorava o tempo todo as condições biológicas da água, a iluminação, o sabor e o equilíbrio da alimentação.

Um aquário adequado para peixes viverem.

Além de bastante decorativo. Continha seres absolutamente lindos. Pelo menos aos olhos do moço. Um arco-íris de tipos habitando a superfície, o meio e o fundo, prateado, dourado, laranja, vermelho, azul, branco, preto, roxo, arlequim, de bolinhas, de listras, de manchas.

Enfeitara também com plantas aquáticas, que são indispensáveis para purificação e oxigenação da água e ambientação dos peixes, e com troncos naturais, pedras, mini cavernas e esculturas com corais adaptados à água doce grudados nelas.  

Cuidar desse pequeno universo lhe dava imenso prazer.

Embora acontecesse uma coisa que produzia frustração. Ele gostaria de contemplar os seus peixinhos, tamborilar de leve as pontas dos dedos no vidro e os ver chegar, com olhinhos de curiosidade e sorrisos de biquinho. Mas nenhum lhe dava tempo para isso, pois quando se aproximava do aquário, todos disparavam para longe, amedrontados, cada um tratando de encontrar um esconderijo. Sempre tinha de se contentar em avistar no máximo um ponto furta-cor entre os pompons da cabomba lá no fundo, ou uma forma que lembrava uma borboleta no meio da samambaia d’água mais distante, ou uma pedra que não era, mas sim uma cauda flutuante, ou algumas bolinhas turquesa, tudo detrás de folhas da anúbia anã. Até mesmo o Otocinclus ao percebê-lo, descolava do vidro a sua ventosa e se enfiava nas profundezas do boião.

O moço foi ficando tristonho com essa circunstância. Precisava descobrir alguma maneira de interagir com os seus bichinhos.

Quando um amigo opinou que se transformar em um peixinho seria o único jeito de ser tratado com naturalidade pelos habitantes do aquário, ele sem receio, ou qualquer hesitação, mergulhou!

Obteve um corpo de peixinho através do ventre emprestado de uma peixinha. E habitou nesse mundo aquático durante um tempo, revelando-se para eles como seu dono, explicando que os havia comprado porque os amava muito, que havia entrado na pele deles para compreender sua fragilidade e seus temores, e contando sobre o cuidado extremo que sempre lhes dedicara.

Chegada a hora de retornar ao seu mundo original, prometeu continuar a zelar pela saúde e a segurança deles. E avisou que desejava manter o contato diário.

Grande parte deles não acreditou numa só palavra da sua história, é lógico, onde já se viu um peixinho dizendo tais coisas?

Mas outros escolheram crer, e perderam o medo de encontrar o dono, mesmo ele sendo imenso.

E esses crentes foram felizes para sempre!

 

_ do argumento do escritor americano Philip Yansey, no livro “O Jesus Que Eu Nunca Conheci”

https://drive.google.com/file/d/1acm5QtS7idN2oLkH7lqI1ORmMuprHBjK/view?usp=share_link

 

_ hã... não, espere um pouco: o argumento mesmo é do escritor judeu chamado João, no capítulo um do seu Evangelho, versículo catorze:

 

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória”.

https://www.bibliaonline.com.br/acf/jo/1

A FEITURA

 


Ontem conheci aquela moça nascida com uma doença que causa descamação em excesso na pele, fazendo parecer que esteve no meio de um incêndio, coberta de crostas escuras, uma disfunção nos olhos e uma deformação nos lábios. Disse que passou por muito procedimento médico, é incurável, e ela sobrevive coberta de bálsamo. Mas pertence a Ti, e ama te louvar, com uma voz que é indescritível. Quem a ouve cantar conclui que também tem motivo para te louvar.

Por isso passei a noite a recordar os bálsamos.

As coisas podem ficar difíceis depois que a gente eclode do ovo. Pele e olhos de sensidez absoluta, pernas trôpegas, ladeira íngreme, pedras pesadas.

Pensei que o primeiro bálsamo tivesse sido aos nove anos de idade, naquela escola aonde me levaste para te encontrar. Onde teve o João-três-dezesseis, o hino-quinze, os pratos de feijão com bagre ao molho de coco, as tranças no cabelo, a amiguinha prestimosa, as maçãs vermelhonas na redinha amarela. E as aquarelas inspiradoras no livro de lição.

Um bálsamo-tatuagem, esse.

Porém houve antes. Quatro anos? Tinham me levado a um ponto alto na ladeira, e sentada no meio da brisa escutei a paisagem. A superfície da lagoa cintilava lilás. Na margem de lá, a silhueta do coqueiral à direita, e à esquerda o aglomerado cosmopolita, que o sol nacarava como se fosse uma praia de conchas. Meu queixo pendurado e meu olhar vagando arregalado. Quem, senão Tu, para me mostrar a paisagem naquela idade?

Mas, espere, um interlúdio antes ainda... não sei quanto antes, mas talvez ainda nem usasse erres e esses. A tarde verde-água morna estava tão fácil de respirar, que eu avancei para a porta, exclamando o festejo: “Que dia bom pra brincar!”, quando uma voz rebateu com aspereza: “Dia bom pra trabalhar!”. Era apenas alguém protestando contra a vida adulta, mas rasurou a tatuagem. E permitiste, para contraste. Para lição de livre-arbítrio. Escolho a vida.

Agora os vejo incontáveis, esses bálsamos desfilando diante dos meus olhos.

Aquela batata-doce mais doce do mundo.

O sururu e o pitu e o siri, seus caldos e pirões.

A manga rosa carnuda que só lá.

O caju com a castanha imensa de assar na fogueira.

A cana e a banana em tudo que é quintal.

O araçá em tudo que é barranco.

Em cada palmo de terra o coco com água e geleia salobrinhas.

O jambo azedinho.

A fruta-pão que é pão mas não.

A amendoeira que é uma escultura de sombra com fruta bordô cheirosa.

Boiar no rio esmeralda bordado de baronesas e com margem rendada de capim-santo e lírios brancos.

Os jasmineiros sem fim na alameda dos casarões, a caminho da casa do tio Pedro. Dali guardei as bonitezas portuguesas, aquelas que resultavam em gemas de louça floral azul lapidadas pelo terreno arenoso em tudo que é canto. E não fiquei arqueóloga desses tesouros? Até hoje em dia.

Bálsamo-tatuagem é de construir álter ego, que eu sei.

Êxodo conta que Tu encheste do Espírito Santo um artista chamado Bezalel para decorar o Tabernáculo de adoração. Ali utilizas inclusive a expressão “inventar invenções”.

Meu álter ego já tinha nome faz um tempo. Mas agora vou mudar. Sou Bezaléa.