segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A FEITURA

 


Ontem conheci aquela moça nascida com uma doença que causa descamação em excesso na pele, fazendo parecer que esteve no meio de um incêndio, coberta de crostas escuras, uma disfunção nos olhos e uma deformação nos lábios. Disse que passou por muito procedimento médico, é incurável, e ela sobrevive coberta de bálsamo. Mas pertence a Ti, e ama te louvar, com uma voz que é indescritível. Quem a ouve cantar conclui que também tem motivo para te louvar.

Por isso passei a noite a recordar os bálsamos.

As coisas podem ficar difíceis depois que a gente eclode do ovo. Pele e olhos de sensidez absoluta, pernas trôpegas, ladeira íngreme, pedras pesadas.

Pensei que o primeiro bálsamo tivesse sido aos nove anos de idade, naquela escola aonde me levaste para te encontrar. Onde teve o João-três-dezesseis, o hino-quinze, os pratos de feijão com bagre ao molho de coco, as tranças no cabelo, a amiguinha prestimosa, as maçãs vermelhonas na redinha amarela. E as aquarelas inspiradoras no livro de lição.

Um bálsamo-tatuagem, esse.

Porém houve antes. Quatro anos? Tinham me levado a um ponto alto na ladeira, e sentada no meio da brisa escutei a paisagem. A superfície da lagoa cintilava lilás. Na margem de lá, a silhueta do coqueiral à direita, e à esquerda o aglomerado cosmopolita, que o sol nacarava como se fosse uma praia de conchas. Meu queixo pendurado e meu olhar vagando arregalado. Quem, senão Tu, para me mostrar a paisagem naquela idade?

Mas, espere, um interlúdio antes ainda... não sei quanto antes, mas talvez ainda nem usasse erres e esses. A tarde verde-água morna estava tão fácil de respirar, que eu avancei para a porta, exclamando o festejo: “Que dia bom pra brincar!”, quando uma voz rebateu com aspereza: “Dia bom pra trabalhar!”. Era apenas alguém protestando contra a vida adulta, mas rasurou a tatuagem. E permitiste, para contraste. Para lição de livre-arbítrio. Escolho a vida.

Agora os vejo incontáveis, esses bálsamos desfilando diante dos meus olhos.

Aquela batata-doce mais doce do mundo.

O sururu e o pitu e o siri, seus caldos e pirões.

A manga rosa carnuda que só lá.

O caju com a castanha imensa de assar na fogueira.

A cana e a banana em tudo que é quintal.

O araçá em tudo que é barranco.

Em cada palmo de terra o coco com água e geleia salobrinhas.

O jambo azedinho.

A fruta-pão que é pão mas não.

A amendoeira que é uma escultura de sombra com fruta bordô cheirosa.

Boiar no rio esmeralda bordado de baronesas e com margem rendada de capim-santo e lírios brancos.

Os jasmineiros sem fim na alameda dos casarões, a caminho da casa do tio Pedro. Dali guardei as bonitezas portuguesas, aquelas que resultavam em gemas de louça floral azul lapidadas pelo terreno arenoso em tudo que é canto. E não fiquei arqueóloga desses tesouros? Até hoje em dia.

Bálsamo-tatuagem é de construir álter ego, que eu sei.

Êxodo conta que Tu encheste do Espírito Santo um artista chamado Bezalel para decorar o Tabernáculo de adoração. Ali utilizas inclusive a expressão “inventar invenções”.

Meu álter ego já tinha nome faz um tempo. Mas agora vou mudar. Sou Bezaléa.

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