A mulher falou para os atendentes da festa fazerem tudo o
que seu filho dissesse.
Os atendentes estavam aflitos porque a última botija de
vinho havia sido servida com a festa ainda no auge. O pesadelo de uma festa de
casamento é minguar assim algum dos comes e bebes, por mal cálculo de consumo
ou excesso de comensais. Para evitar maiores constrangimentos era preciso
tratar o assunto com discrição. E rapidez, obviamente.
Por isso ela pôs o problema na mão do seu filho, que era
quem poderia resolver dentro dos conformes. Sabia disso por causa da
cumplicidade com ele. Nem era fé. Ela não necessitava de fé nisso. Já que
fé é ter certeza de coisas ainda não vistas. E ela via, viu desde o dia
em que ele foi plantado como semente no seu ventre. Naquela circunstância, se
não tivesse adquirido toda certeza sobre quem era ele, seria fraca de
inteligência. Mas ela via, sabia quem ele era.
Tanto quanto ele mesmo sabia quem era. Aos doze anos ele
já falava em estar tratando dos negócios do seu pai. E não estava se referindo
a carpintaria, aparelhar a madeira, cortar, aplanar, polir, unir os pedaços.
Não literalmente. Poeticamente é que não deixava de ser uma carpintaria. De
mentes. Um cortar, aplanar, polir, unir pedaços. Na idade de todo menino judeu
ser iniciado no conhecimento inscrito nos livros da lei, ele, com inusitada
força de espírito, se sentara entre os mestres da palavra, a ouvi-los e
interroga-los e causar-lhes espanto com seu conhecimento.
Quando nesse dia da festa ela lhe informou sobre a falta
do vinho, ele ainda contestou, a respeito da hora de mostrar a que viera. Faria
o que fosse quando lhe fosse permitido.
Ela é que sentia, de certa forma, que ele já poderia
fazer isso. Ou quem sabe fosse um sentir nem tão místico, mas humano, a
humanidade de querer ver concluído um trabalho no qual tivera até aí
participação ativa. A ansiedade tão humana com que alguém espera a hora do
show.
O show propriamente dito foi frustrado, por assim dizer,
foi menos pirotécnico do que ela poderia estar esperando. Uma performance
sussurrada em vez de gritada. Nada de fogos de artifício. Só os que estavam bem
perto viram. Tratava-se principalmente de uma demonstração para os amigos
recentes dele, um tipo de primeira lição de fé, pois ele lhes havia prometido
verem daí em diante o céu aberto e os anjos subindo e descendo sobre ele.
Ela não chegaria a saber em tempo hábil que quando o propósito
dele estivesse em pleno andamento, o papel dela seria distorcido, ela chegaria
a ser transformada em ícone, chegaria a ser adorada como um totem, um amuleto
multiprotetivo confeccionado com material nobre como o mármore, ou metal, ou
madeiras variadas, gesso e demais materiais escultóricos. Até mesmo viria a ser
desdobrada em personagem milagreira surgida de uma estatueta de madeira restada
de um incêndio. Iam inseri-la em um sem-fim de lendas.
Mas não estava para nada disso. A bem da verdade sabia mais dele que de si mesma. Desejava que eternamente ele crescesse e ela desaparecesse. Quando lhe contou que o vinho acabou foi para o ver brilhar, foi o desejo de retirar o véu que ainda o preservava. E quando disse para os atendentes fazerem tudo o que ele dissesse, foi o que quis dizer realmente, que fizessem tudo o que ele dissesse, porque era o que ela fazia. Ele se havia sujeitado a ela como filho, mas o trabalho dela no referente à formação dele, se ainda houvesse, teria findado nessa ocasião, vendo o sinal.
Seu filho falou para os atendentes encherem seis potes de
pedra gigantescos com água até a boca, e sem executar nenhum abracadabra,
mandou que levassem esses potes ao organizador da festa. Cerca de seiscentos
litros.
Os serviçais então entregaram ao organizador da festa os
seis potes cheios do que acreditavam ser água, já que com água haviam enchido,
cumprindo a ordem do moço, como ela os aconselhara a fazer.
Quando o organizador da festa experimentou o conteúdo,
constatou tratar-se de um vinho de qualidade mais excelente que o servido
anteriormente. E se admirou de o melhor ter sido guardado para o final, quando
usualmente se faz o oposto.
E ela disse somente para si mesma: “É lógico, a graça é
crescente”. Muito contente em se sentir o pote dessa preciosidade.
(De uma história feminina no livro de João)

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