Ela queria saber por que a pessoa do gênero masculino pega
em flagrante adultério não estava ali para ser apedrejada também. Havia
inquirido aqueles homens, como quem dava esporadas de autodefesa. Mas
inutilmente. Nem esporadas, vassouradas. Mulher a brandir sua vassoura tão
insignificante: por que vocês odeiam as mulheres? Por que querem nos destruir?
Não sabem que se acabarem com todas as mulheres o mundo acaba? Nós somos metade
do mundo. Vocês depositam suas sementes, num momentinho de prazer quase
relâmpago, e o resto do trabalho, de modelagem e cura do novo ser, fica por
nossa conta. As mulheres não são tolas a esse ponto, bem sabem que se
destruíssem a metade do mundo, a parte que tem a semente, o mundo acabaria.
Vocês têm a semente e nós temos o ambiente. A sua semente não vai germinar sem
o ambiente.
O homem que eles com mal disfarçado escárnio chamaram de
mestre, diante do qual ela foi trazida para ser julgada sumariamente, estivera
dando uma palestra para muitos ouvintes, mas agora parecia distraído, sem fazer
mais do que rabiscar o chão. Devia saber por qual motivo a pessoa do gênero
masculino pega em flagrante adultério não estava ali para também ser apedrejada.
As mulheres também eram de fazer política, mas só entre
quatro paredes. Como aranhas tecendo fios grudados nas partes internas da casa.
Aranhas inócuas. Inofensivas e indefesas perante as criaturas de gênero
masculino. Mulher já nascia sob condenação. Existia uma pena de morte
especificamente feminina. Tanto a libertina quanto a mulher mais domesticazinha
podiam ser apedrejadas, sendo as qualidades ou os defeitos fatores secundários.
Todos sabiam que
havia dois pesos e duas medidas. Isso informalmente, a Lei mesmo não
apresentava dois pesos e duas medidas, mas uma medida única e muito difícil,
uma vez que Jeová continuava invisível e os guardiões do estatuto eram
corruptos. Era evidente que a violência de gênero daqueles homens tinha
motivação mais que religiosa ou de costume ou cultural. Eles eram políticos.
Estavam ali, literalmente com quatro pedras na mão, para ver esse que chamavam
mestre contradizer as determinações sobre o assunto, para ter de que o acusar. O
comportamento dele os incomodava por várias razões.
E ele sem demonstrar interesse pela questão apresentada no
momento, rabiscando o chão. Tiveram que insistir para saber qual era a sua
opinião.
Então se endireitou por um momento, apenas para sugerir que
algum inocente entre eles começasse o apedrejamento. E voltou a rabiscar o
chão.
Ela notou a seguir que diferente do seu manejo de uma
vassoura contra consciências de pedra, a verdade manejada por esse homem foi
uma espada fina contra consciências de repente moles. Algum inocente??
Só se ouviu um silêncio de consciências confrontadas. Um
silêncio comprido. E começaram a se afastar dali. Primeiro o de consciência
mais longa em anos e gradativamente um a um se foram retirando, até o de
consciência mais curta.
E ela foi deixada só diante desse homem, e confirmou que
ninguém a condenara.
Ele tampouco. Liberou-a, recomendando que não reincidisse. E
retomou a palestra interrompida, prosseguiu ensinando para sua multidão de
ouvintes que veio ao mundo porque Jeová estava imensamente irado com a
humanidade. O que era patente, aos olhos dela e de qualquer um, os motivos
dessa ira. Mas havia uma boa nova que ele estava anunciando: Jeová não mais mataria
por merecimento, antes daria uma chance através dele para a pessoa arrependida
não repetir o erro.
Assim foi que ele a libertou da inferioridade de gênero.
Conscientizou-a da igualdade humana que sempre existiu para ele.
E ela soube que desfrutaria desse estado enquanto
desfrutasse da sua presença.
(De uma história feminina no livro de João _ Bíblia)

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