quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A MULHER DAS PEDRAS


Ela queria saber por que a pessoa do gênero masculino pega em flagrante adultério não estava ali para ser apedrejada também. Havia inquirido aqueles homens, como quem dava esporadas de autodefesa. Mas inutilmente. Nem esporadas, vassouradas. Mulher a brandir sua vassoura tão insignificante: por que vocês odeiam as mulheres? Por que querem nos destruir? Não sabem que se acabarem com todas as mulheres o mundo acaba? Nós somos metade do mundo. Vocês depositam suas sementes, num momentinho de prazer quase relâmpago, e o resto do trabalho, de modelagem e cura do novo ser, fica por nossa conta. As mulheres não são tolas a esse ponto, bem sabem que se destruíssem a metade do mundo, a parte que tem a semente, o mundo acabaria. Vocês têm a semente e nós temos o ambiente. A sua semente não vai germinar sem o ambiente.

O homem que eles com mal disfarçado escárnio chamaram de mestre, diante do qual ela foi trazida para ser julgada sumariamente, estivera dando uma palestra para muitos ouvintes, mas agora parecia distraído, sem fazer mais do que rabiscar o chão. Devia saber por qual motivo a pessoa do gênero masculino pega em flagrante adultério não estava ali para também ser apedrejada.

As mulheres também eram de fazer política, mas só entre quatro paredes. Como aranhas tecendo fios grudados nas partes internas da casa. Aranhas inócuas. Inofensivas e indefesas perante as criaturas de gênero masculino. Mulher já nascia sob condenação. Existia uma pena de morte especificamente feminina. Tanto a libertina quanto a mulher mais domesticazinha podiam ser apedrejadas, sendo as qualidades ou os defeitos fatores secundários.

Todos sabiam que havia dois pesos e duas medidas. Isso informalmente, a Lei mesmo não apresentava dois pesos e duas medidas, mas uma medida única e muito difícil, uma vez que Jeová continuava invisível e os guardiões do estatuto eram corruptos. Era evidente que a violência de gênero daqueles homens tinha motivação mais que religiosa ou de costume ou cultural. Eles eram políticos. Estavam ali, literalmente com quatro pedras na mão, para ver esse que chamavam mestre contradizer as determinações sobre o assunto, para ter de que o acusar. O comportamento dele os incomodava por várias razões.

E ele sem demonstrar interesse pela questão apresentada no momento, rabiscando o chão. Tiveram que insistir para saber qual era a sua opinião.  

Então se endireitou por um momento, apenas para sugerir que algum inocente entre eles começasse o apedrejamento. E voltou a rabiscar o chão.

Ela notou a seguir que diferente do seu manejo de uma vassoura contra consciências de pedra, a verdade manejada por esse homem foi uma espada fina contra consciências de repente moles. Algum inocente??

Só se ouviu um silêncio de consciências confrontadas. Um silêncio comprido. E começaram a se afastar dali. Primeiro o de consciência mais longa em anos e gradativamente um a um se foram retirando, até o de consciência mais curta.

E ela foi deixada só diante desse homem, e confirmou que ninguém a condenara.

Ele tampouco. Liberou-a, recomendando que não reincidisse. E retomou a palestra interrompida, prosseguiu ensinando para sua multidão de ouvintes que veio ao mundo porque Jeová estava imensamente irado com a humanidade. O que era patente, aos olhos dela e de qualquer um, os motivos dessa ira. Mas havia uma boa nova que ele estava anunciando: Jeová não mais mataria por merecimento, antes daria uma chance através dele para a pessoa arrependida não repetir o erro.

Assim foi que ele a libertou da inferioridade de gênero. Conscientizou-a da igualdade humana que sempre existiu para ele.

E ela soube que desfrutaria desse estado enquanto desfrutasse da sua presença.

(De uma história feminina no livro de João _ Bíblia)

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