A procrastinação já me impediu de realizar várias coisas.
Lavagens de roupa, marcações de consulta no SUS, invenções artísticas. Mas
nalguns casos minha desistência é por ver sinal de inutilidade mesmo. Algumas
vezes é bom senso.
Minha Ordem de Serviço de todo dia parece simples: cuidar
da minha vida o melhor possível e ajudar quem está perto. Mas acho que devo evitar o desperdício de energia. Isso é algo para
prestar atenção. É preciso pesar os sinais do desempenho. Como Jesus fez com
aquela figueira que viu no caminho. Estava com fome. Estação de figo. Chegou
perto da árvore. Procurou. Mas só encontrou folhas. Então disse: Nunca mais dê frutos! Lemos que ela
secou na hora. E embora sua contrariedade ali seja evidente, pode bem ter
falado sem exasperação, com a mesma serenidade com que disse Efatá para abrir o ouvido do surdo.
O potencial de um projeto tem de ser analisado. Bem de
perto.
Igual também naquele meio-dia quente em que Ele chegou com
dois anjos à residência de Abraão. Vindo avaliar as acusações contra Sodoma. Chegaram
fisicamente, os três. Mais de perto que isso impossível. Sabemos da
fisicalidade por causa do almoço servido por Abraão, pão, carne, leite,
coalhada.
Os teólogos concluíram que o Deus humano em todas as
ocasiões de visita no Antigo Testamento é a pessoa do Filho de Deus, por isso
dão o nome de Cristofania a essas aparições.
Aqui gosto de fazer um parêntese, sem perder o fio da
meada, prometo. É que sou uma artista, e estranha, sempre que leio essa
passagem se abre na minha frente o abismo da curiosidade: que corpo é esse? Um
detalhe que parece não interessar a mais ninguém. É corpo provisório, o
definitivo ainda seria formado no ventre de Maria.
Fico imaginando se deviam ser corpos feitos para usar na
aparição e depois desmanchados, ou corpos que haviam acabado de ser desocupados,
e então “vestidos” para o momento.
Admito que essa curiosidade é causada pelo ocorrido no
filme Encontro Marcado. Se é curiosidade pueril, desculpe, vou retomar o fio da
meada. Sobre analisar potencial de projeto em andamento.
Depois da refeição os dois anjos foram para Sodoma, para
a análise in loco, e Ele ficou com o anfitrião no mirante, a observar a cidade
lá embaixo no vale.
Gosto tanto da atmosfera desse momento, que até dá vontade de ter estado junto, apesar da desgraça iminente. E correndo o risco do profano outra vez, vou dizer que me lembra um
pouquinho de Suassuna, Abraão parecendo um João Grilo, parado como um
cisco de gente, mal disfarçando a ansiedade em conhecer a intenção do
Senhor. Porque seu sobrinho Ló morava em Sodoma.
Talvez haja
cinquenta justos na cidade, experimenta dizer.
Fico com a impressão de que que o Senhor está reticente, com boa parte da atenção voltada para o relatório virtual dos dois anjos lá no vale, numa espécie de meet
online, pois responde apenas que não destruiria cinquenta justos, deixando espaço grande para Abraão pó e cinza se atrever a esticar interrogação outra vez e
mais outras, em ordem regressiva chegando à especulação de dez justos na
cidade.
A última resposta
do Senhor foi de tranquilizar, estava monitorando o potencial do lugar.
E hoje sabemos que esse potencial não era outro senão o
cúmulo em arrogância, depravação e violência. Por exemplo, com a chegada dos
dois agentes celestiais à casa de Ló, simplesmente todos os homens da cidade tentarem
arrombar a porta para estuprar esses visitantes. E ameaçavam fazer pior ao
dono da casa por protege-los.
O Senhor por fim mandou retirar dali Ló e família, para
continuar a analisar. E o resto queimou.

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